Hino da Monarquia Portuguesa

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Restauração da Independência

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Tuesday, 13 October 2009


Uma curiosa história real

A Casa da Rainha



A revolução republicana de cinco de Outubro de 1910 saiu vitoriosa.
Carlos Relvas em nome de todos os republicanos, da janela central dos Paços de Concelho, declarou unilateralmente a implantação da República em Portugal.
Os membros da família real tiveram de fugir para o exílio.
A ameaça dos republicanos obrigou a uma fuga que constitui uma mancha negra da História de Portugal.
Não tiveram os republicanos a postura de dignidade para com a família real portuguesa, que a ética e a tradição nacional impunha.
A família real portuguesa teve de embarcar na praia da Ericeira, numa embarcação de pescadores até ao iate Amélia, que os aguardava em alto mar.
É efectivamente uma página triste da história de Portugal.
Mesmo para um convicto defensor do sistema republicano de organização de estado, que tenha orgulho no seu país, na sua história, não pode deixar de ser chocante ver a fotografia daquele desfile pela praia rumo ao barco de pescadores.
À frente nesse desfile apoiada no braço do seu fiel servidor o Conde de Mesquitela, ia a Rainha Maria Pia, avó do Rei D. Manuel que fora deposto, depois a Rainha Dona Amélia sua mãe, seguidas da restante comitiva, onde se integrava também o jovem Rei.
Lá no alto e ao longo de toda a alta falésia o povo dizia-lhes adeus acenando lenços brancos. Muitos choravam.
No iate aguardava-os o Infante D. Afonso, Duque do Porto e tio do Rei deposto.
Aquela família era uma família destroçada.
Pouco mais de dois anos tinham passado após a tragédia do assassinato do rei D. Carlos e de seu filho, o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe.
A euforia revolucionária não permitia a verdadeira expressão de angústia que tudo isto causava em muitas famílias portuguesas.
Triste país, que trata uma família assim.

Rumaram a Inglaterra, onde foram recebidos dignamente pelo Rei Jorge V, que tudo fez para os acomodar de acordo com o estatuto que tinham.
D. Carlos e Dona Amélia tinham um convívio muito próximo com a casa real britânica, tendo sido íntimos do falecido Rei Eduardo VII, que visitara também Portugal em várias ocasiões.
Esta ligação humana das personalidades reais, portuguesa e britânica já vinha da geração anterior, pois D. Pedro V, era primo e grande amigo do Príncipe Alberto marido da Rainha Vitória.
Ele e seu irmão Luís, o avô do agora Rei deposto, tinham inclusive tido uma estadia prolongada na corte britânica, após a morte de sua mãe a Rainha D. Maria II.
A intimidade era de tal forma que a rainha Vitória sempre chamou ao Rei D. Luís, não pelo seu nome, mas pelo diminutivo familiar de criança, Lipipi.

D. Afonso seguiu no iate Amélia para Itália com sua mãe, pois a rainha Dona Maria Pia preferiu ir para o seu país de origem, a Itália.
Foram recebidos pelo Rei Umberto II, irmão de Dona Maria Pia e instalados no Palácio Real de Roma.
Mas todos os acontecimentos graves porque tinham passado afectavam a saúde de ambos.
Dona Maria Pia que na época tinha apenas sessenta e quatro anos, tinha envelhecido subitamente desde a morte do filho e do neto primogénito, por quem tinha um muito particular afecto e também uma relação de grande proximidade.
Era agora com o exílio uma mulher completamente desmoralizada.
D. Afonso era um homem cada vez mais isolado. Apesar da insistência de seu tio o Rei de Itália para continuar a viver no Palácio Real, preferiu ir viver para Nápoles onde a família era proprietária de alguns palácios.
Escrevia regularmente a sua mãe, insistindo para que ela também viesse para Nápoles.
Dona Maria Pia, aconselhada pelo seu fiel Conde de Mesquitela, acabou por empreender essa viagem para se instalar próximo do seu único filho ainda vivo.
Mas as suas resistências e motivações de vida já eram ténues e acabou por morrer naquele ano de 1911, deitada na sua cama e suspirando uma ultima pergunta…”para que lado fica Portugal ?”.
D. Afonso de Bragança, apesar de viver cada vez mais isolado, mantinha uma postura de interesse pela questão portuguesa tendo-se deslocado inclusive a Inglaterra para contactar D. Manuel II e alguns dos resistentes monárquicos, mas cada vez estava mais desiludido e voltava para Nápoles.

Dona Amélia de Orleans e Bragança, a rainha-mãe portuguesa, ficou inicialmente a viver em Londres, para estar próximo do filho em Inglaterra.
D. Manuel II casou com a Princesa Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmarigem, que ainda era sua parenta, uma vez que ambos eram bisnetos da Rainha D. Maria II e de D. Fernando.
O casamento decorreu no Castelo de Sigmarigem, no dia 4 de Setembro de 1913, com a presença de toda a família Orleans, incluindo o Conde de Paris e também de todos os membros da casa real inglesa, nomeadamente o Rei Jorge V e o Príncipe de Gales.
A missa nupcial foi celebrada pelo Cardeal Neto, também ele um refugiado de Portugal, vítima das primeiras perseguições eclesiásticas republicanas.
O casal passou a viver pacatamente, numa idílica casa de Fulfwell Park, situada na zona de Twickenham.
Essa casa tinha sido onde Dona Amélia tinha nascido e pertencia portanto à família Orleans.
Mas o rei continuou sempre atento à política portuguesa e ibérica, através da correspondência e de contactos com monárquicos portugueses e com frequentes contactos com o Rei de Espanha Afonso XIII.
Tinha como secretário pessoal o Marquês do Lavradio que também tinha seguido no cortejo do exílio e era seu representante em Portugal, Ayres d’Ornellas.
D. Manuel era um frequentador assíduo das corridas de cavalos de Ascot e também dos campeonatos de ténis de Wimbledon.
.D. Manuel foi um notável Bibliografo da Literatura portuguesa, tendo deixado uma obra de grande valor histórico e cultural.
Foi um activo e dedicado benfeitor da comunidade onde agora vivia.
A essa comunidade britânica que sempre o recebera de forma acolhedora, ele queria compensar participando activamente e de uma forma benevolente na vida social dessa comunidade britânica. Gostava de ler e de cultivar rosas numa estufa de vidro, que tinha mandado colocar no jardim da sua casa.
O casal não teve filhos, mas foram sempre muito unidos e amigos.



D. Afonso de Bragança, que era na linha da descendência o sucessor directo de D. Manuel seu sobrinho, morrera em Itália no ano de 1920, depois de ter criado antes um litígio com a casa real portuguesa e italiana, que condenaram o seu surpreendente casamento morganático em 1917, com uma americana chamada Nevada Stood Hayes Chapman.

D. Manuel aceita ainda em 1920, por influência e mediação de Paiva Couceiro, realizar encontro em Dover com D. Miguel de Bragança, filho e herdeiro do Rei D. Miguel I, em que reconhece neste, os seus direitos há herança dos seus títulos e pretensões após sua morte sem descendência.
Este encontro a que alguns chamam de pacto de Dover, foi um almoço entre os principais representantes da facções legalista e legitimista, que após o insucesso da Monarquia do Norte, tinham acentuado as suas divisões e radicalizado posições.
Houve um convénio anterior a este encontro e depois uma troca de cartas, que só foram abertas à posteriori. D. Manuel acabou por não aceitar os termos da carta de D. Miguel, pois o que estava referido na carta que abrira no comboio de regresso a Londres, não estavam de acordo com o acordado com o intermediário o Comandante Paiva Couceiro. Paiva Couceiro ao tomar conhecimento do conteúdo da carta confirma esta situação.
A questão dinástica, só ficará resolvida dois anos depois, com o Acordo de Paris, assinado por Ayres d’Ornelas como representante do Rei D. Manuel II e pelo Conde de Almada, Lourenço Vaz de Almada, em nome de D. Miguel de Bragança. É nesse acordo que fica reconhecido D. Duarte Nuno de Bragança, filho de D. Miguel, como herdeiro da coroa do reino de Portugal.

Dona Amélia que ficara em Londres numa residência alugada, tem problemas com os senhorios que não querem continuar a manter o contrato que tinham com a Rainha portuguesa.
Muda-se então para casa de seu filho, que já inúmeras vezes, tinha sugerido que ela vivesse com ele e sua mulher.
Dona Amélia porém não só não queria incomodar o filho, como tinha indicações médicas para não viver num clima tão húmido como o britânico.
Esta confirmação médica veio a convencer o filho a que seria melhor para ela ir viver para o Continente e foi quando Dona Amélia decidiu voltar ao seu país e procurar residência em Paris.
Em cartas enviadas para Portugal a Dona Maria de Menezes, sua amiga narra as dificuldades que lhe surgiram para encontrar casa na zona de Paris. Nessas mesmas cartas, ela narra que finalmente encontrara uma casa em Versalhes e que se iria mudar em breve.
Ao filho fez a promessa, que sempre cumpriu de voltar a Inglaterra, para passar algumas temporadas não apenas para estar com ele, mas também pelo reconhecimento que tinha pelo país e pela forma como os ingleses sempre a receberam e trataram.

A Casa de Versalhes seria a última residência de Dona Amélia e onde ainda passou as três últimas décadas de sua vida. Nela tinha todas as suas recordações da vida em Portugal. Livros, quadros, móveis, fotografias, cartas…que mantinha a recordação permanente da sua vivência como Rainha.
O Chateau de Bellevue era uma digna mansão que ainda hoje, ano de 2008, pode ser admirada na cidade de Versalhes.

A morte prematura e surpreendente de seu filho D. Manuel II, no ano de 1932, veio a modificar aquele hábito das deslocações a Inglaterra.
A última travessia da mancha que Dona Amélia fez foi precisamente para chorar o desaparecimento de seu filho.
O cruzador britânico “Concorde” traz os restos mortais de D. Manuel para Portugal, onde chega no dia dois de Agosto de 1932.
A rainha Dona Amélia não o acompanhou até à sua ultima morada ficando em Inglaterra e posteriormente regressando para Versalhes.
O Governo britânico teve interferência directa, negociando com o governo português o funeral do último Rei português.
Jaz em sepultura no Panteão dos Bragança, em S. Vicente.

Na sequência da invasão Alemã durante a segunda guerra mundial a mansão de Dona Amélia foi ocupada pelas tropas germânicas .
Oficiais germânicos insistiram em ficar com aquela casa e obrigaram Dona Amélia e os seus servidores a ocuparem apenas o segundo piso da casa, ficando eles instalados no resto da mansão.
Foi mais uma situação muito constrangedora que a Rainha teve de passar.
O Presidente do Conselho de Ministros português, Dr. António de Oliveira Salazar, informado da situação oferece à rainha a possibilidade de vir para Portugal.
Mandou mensageiros do corpo diplomático português falar directamente com a Rainha, que recusou a oferta do governo português. No entanto ficou sensibilizada com o interesse que finalmente um representante da República portuguesa demonstrava para com ela. Mas entendeu que não poderia aceitar a oferta e declinou o convite, com o argumento que se recusaria a abandonar as pessoas que com ela viviam.
Dona Amélia vivia assim na mesma casa que o General Bieneck, que porém nunca teve a ousadia de falar com a rainha ou tentar invadir os seus aposentos privados.
A situação era constrangedora e Salazar movimenta-se.
Portugal tinha o estatuto de país neutro na guerra mundial e foi isso que permitiu a estratégia delineada na Embaixada portuguesa de Paris, para cumprir a determinação de Salazar de resolver a situação demasiado embaraçosa da rainha portuguesa.
Salazar deu aval a essa estratégia.
Uma bandeira portuguesa foi colocada no portão da mansão de Dona Amélia por funcionários da Embaixada portuguesa em Paris.
A bandeira era a bandeira da Republica Portuguesa.
O Embaixador de Portugal reclama a mansão como parte integrante do território nacional e por consequência como território neutro.
O General Bieneck recebe instruções para abandonar a mansão de Bellevue, do quartel general das tropas ocupantes.
Não deixa de ser bizarra a situação.
A bandeira republicana tinha salvo a rainha portuguesa de uma situação muito penosa.
A Republica redimia-se da forma como a tratara. Ela reconhecia isso mesmo.
Mais tarde, terminada a guerra, Dona Amélia aceitaria vir a Portugal.
Ela também tinha muita ansiedade de vir visitar os túmulos dos membros da sua família. Era a última sobrevivente daquele ramo da família Bragança.
Muitos foram os portugueses de todo o país que fizeram questão de se deslocar a Lisboa para a cumprimentar.
Sentiu então algum conforto, esta rainha sofrida que viu morrer todos os seus familiares que tanto amava.

O Chateau de Bellevue ainda está intacto e bem conservado.
A rainha legou-o ao Estado francês, que aí instalou alguns serviços oficiais.
Na sua alta chaminé podem ainda ver-se unidas as “Armas Reais de Portugal e de França”.
No seu portão principal, está colocada uma placa que recorda: “Aqui viveu e morreu Amélia de Orleans e Bragança, rainha de Portugal e Princesa de França”.
A rua onde está situada a casa, recebeu o nome de Rainha Dona Amélia.
No seu enterro a bandeira da República, que estivera sempre içada desde que lá fora colocada, envolveu a sua urna.


José J. Lima Monteiro Andrade

4 comments:

  1. Mais uma história que desconhecia da própria História de Portugal!
    Muito bem entregue o seu tempo José Andrade.

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  2. Neste ano de centenário da República acho que estes "episódios negros" da implantação da República devem ser divulgados a todos os portugueses. Há fins que não justificam os meios "horrendos" e humilhantes utilizados a quando do regicídio (1908)e do embarque da Ericeira (1910). Como professora de História que sou, neste conteúdo, como em qualquer outro conteúdo do programa da minha disciplina, procuro leccionar com imparcialidade, mas até as crianças reconhecessem a crueldade dos factos históricos. Felizes e harmoniosos os povos que vivem em paz consigo mesmos!

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  3. Muito interessante e detalhado.

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  4. Perdoe-me a intrusão, mas a questão dinástica nunca ficou resolvida, nem poderia ter ficado, pois nenhum Rei pode designar o Seu sucessor. E só as Côrtes Gerais tem op poder para o fazer. E dos Pactos de Dover e de Paris, nunca saiu nada a não ser isso mesmo, que os 2 pretendentes reconheciam apenas às Côrtes Gerais esse poder, o de escolher e Aclamar um Rei e submeteres-iam a decisão que saísse dessas Côrtes Gerais.
    Assim, é que é verdade.

    Cordialmente,
    Nuno Ramos.

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